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Entrevista com José Roberto Xavier

Entrevista com José Roberto Xavier

A carreira acadêmica no Direito muitas vezes é vista como acessória a alguma outra atuação profissional. Com o objetivo de prestigiar esta profissão, trazemos uma entrevista com o antigo estagiário José Roberto Xavier, atual professor da Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Você poderia descrever sua “carreira” no DJ? Que funções exerceu, quais cargos ocupou e em que ano?
Estive no DJ em 1999, 2000 e 2001. Fui vareiro, estagiário plantonista e diretor de assuntos externos.

Você poderia descrever um momento marcante em sua passagem pelo DJ? Pode ser um caso, um projeto ou alguma outra história.Foram alguns casos marcantes. Atuava quase que exclusivamente em ações de família. Guardo muito boas lembranças de alguns clientes que pude ajudar e da gratidão que tiveram comigo. Me lembro particularmente com carinho de um caso de guarda de menores, no qual havia abuso psicológico de duas meninas – a mais velha devia ter uns 6 ou 7 anos – por parte da mãe. O cliente era um pai super dedicado e ficou muito agradecido quando o juiz decidiu que as duas meninas deveriam morar com ele. Era um caso triste, e ver a alegria do pai e das meninas foi muito marcante.Me lembro também de algumas dificuldades do trabalho de acompanhar processos numa cidade tão grande como São Paulo. No meu primeiro dia de trabalho, fui enviado a Itaquera para acompanhar os processos do DJ por lá. Fui acompanhado da minha querida amiga Manuela Schreiber, hoje promotora, que faria meu treinamento. Tudo correu bem, até sairmos do fórum. Caiu um daqueles dilúvios de verão em Itaquera e acabamos ilhados dentro do ônibus que nos levaria ao metrô. Foram algumas horas por lá, sem comunicação. Chegamos no centro, o DJ já estava fechado e não pude devolver as fichas de acompanhamento a tempo. Foi dureza aquele primeiro dia. Ainda bem que estava em boa companhia.Guardo também lembranças das dificuldades estruturais que tínhamos no DJ. Pouco dinheiro para muitas ideias e projetos, para manter condições razoáveis de trabalho, para conseguir dar conta da demanda… Quando voltei para uma visita em 2014, fiquei muito impressionado de como a estrutura cresceu, como as instalações estavam melhores.

Como foi sua escolha pela carreira acadêmica?

Acho que não escolhi. A vida vai levando a gente por caminhos que não esperamos. Acho divertido quando vejo currículos em que as pessoas explicam como cada etapa da vida foi de muito planejamento e escolhas pensadas. Eu não me reconheço nesses relatos.

A faculdade de direito foi uma passagem difícil para mim. Francamente não gostei do curso. Gostava das matérias não dogmáticas, mas elas eram poucas. Gostava muito de alguns professores que foram excelentes, como o Tércio Sampaio, o José Eduardo Faria e o Sérgio Adorno. Mas, no geral, eu era bastante deslocado na faculdade de direito.

O DJ aliás teve um papel importante na minha vida nesse momento. Era um antídoto para a falta de estímulo que sentia na faculdade. Se não me identificava em muitas das disciplinas da São Francisco, sobrava energia e animação tanto com os casos que acompanhava quanto com a administração do DJ.

Essa falta de entusiasmo com a faculdade de direito me levou a buscar pontes em outras disciplinas. No quarto ano da faculdade li “Vigiar e Punir” e aquele livro foi uma enorme inspiração para mim. Após essa leitura, fui buscar o professor Sérgio Adorno para fazer uma iniciação científica. Isso já no quinto ano da faculdade. Uma vez formado, o que me interessava não era a prática jurídica, mas a pesquisa na área da sociologia do direito e da criminologia.

Logo depois de formado tive uma oportunidade de fazer um mestrado em criminologia na Universidade de Ottawa, no Canadá. Na sequência acabei ficando por lá para fazer o doutorado. Voltando para o Brasil, depois de nove anos no Canadá, a identidade de pesquisador já estava constituída. Aí a carreira acadêmica se impunha naturalmente.

 

Como é a sua atuação hoje e como você a construiu?

Hoje sou professor da Faculdade Nacional de Direito (UFRJ). Dou aulas nas disciplinas “Métodos e técnicas da pesquisa sociojurídica” e “Direito e Sociedade”.

 

Acha que sua experiência com o DJ influenciou a sua escolha de alguma maneira?

 

Certamente. O DJ era minha maior alegria e fonte de inspiração na época da graduação. Sem ele provavelmente não teria chegado ao fim do curso de direito. O contato com uma realidade social muito diferente da minha, com as iniquidades do processo, com as mazelas do sistema de justiça… Tudo isso foi muito importante para o meu interesse pela sociologia do direito e pela criminologia.
 

Que mensagem você daria aos membros da sua época de DJ? E para os atuais?

Para os atuais, queria apenas compartilhar que me sinto um privilegiado por ter passado pelo DJ. De tudo o que vivi na faculdade de direito, é de longe aquilo de que mais me orgulho. Para os colegas da época, ficou uma grande saudade.

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thalita.tozi@gmail.com

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